As palavras e o nazismo
Publicado pela primeira vez em 1947, o livro
LTI: a linguagem do Terceiro Reich analisa as formas do discurso nazista
Eduardo Fonseca
Em "LTI: a linguagem do Terceiro Reich", Victor Klemperer (1881-1960) traz à tona o domínio nazista na Alemanha constituído a partir do discurso. Filólogo judeu, Klemperer se salvou dos campos de concentração por ser casado com uma "ariana", mas isso não o poupou de prestar serviços forçados em fábricas, nem de ser obrigado a usar a estrela de Davi sobre a roupa para que todos soubessem que ali se econtrava uma persona non grata.
Escrito primeiramente como um diário, o livro foi literalmente enterrado em pequenas partes que, ao final da guerra, foram resgatadas. De posse novamente de suas anotações, o autor se debruçou sobre os fatos que havia registrado e os depurou de forma catedrática, mas humana, dando àquilo que aparentemente parecia banal uma amplitude singular. "Ele não quis que nenhum acontecimento ficasse dependente de sua memória. As coisas iam acontecendo e ele escrevia sobre o fato em seguida", conta a tradutora Miriam Oelsner, durante o lançamento do livro realizado no último dia 22, no Instituto Goethe, em São Paulo.
Pilotos de corrida
A celebração popular em cima dos pilotos de corrida de automóvel, que ganharam status de heróis, por exemplo, era anotada para, posteriormente, ser analisada. Para o autor, o enaltecimento do piloto nada mais era do que a exaltação de um modelo ideal de nazista. O automóvel, "como se fosse uma armadura", abrigava um "espírito de heroísmo" do regime, que pregava um "olhar fixo e determinado, de quem quer conquistar".
Apoiado na popularização dessa figura, Klemperer aproveita para discursar sobre o verdadeiro caráter do heroísmo, em como este foi desvirtuado e teve nos esportistas e militares o seu ideal materializado. "É provável", diz ele, "que na Alemanha nazista tenha havido casos de heroísmo autêntico entre soldados e esportistas. Mas, a bem da verdade, olho para essas duas categorias com ceticismo. Em ambos os casos há muita ostentação, muito interesse no lucro, muita vaidade pessoal, para serem autênticos. Esses corredores de automóveis eram cavaleiros da indústria automobilística".
Outra estratégia de dominação do Nacional-Socialismo era a repressão desenfreada e sistemática a qualquer tipo de desenvolvimento intelectual. Aliada a essa repressão, o autor cita a fervorosa repetição de palavras e gestos que "se embrenhou na carne e no sangue das massas", como a forma de propaganda mais poderosa.
Nazismo em partes
Dividida por temas, para Miriam Oelsner, a obra possui um fio condutor certeiro que pode ser resumido na pergunta: "como o povo alemão foi capaz de fazer isso?". Diante desse questionamento, o autor analisa o totalitarismo em partes, mostrando a capacidade do regime em esvaziar o conteúdo das palavras, mascarando e justificando ações que, vistas de fora, parecem surreais. "Até o capítulo 24, (Klemperer) descreve como a linguagem nazista fora estruturada e como se infiltrara na mente do povo alemão. Do capítulo 25, 'A estrela', até o 35, 'Ducha escocesa', descreve o comportamento e as estratégias de sobrevivência dos judeus, agora já discriminados como o grupo dos portadores da estrela", explica a tradutora.
A comédia do ridículo
Um misto de memória e reflexão, "LTI" (sigla que vem do latim,
Lingua Tertii Imperii) nos mostra também de maneira pontual como a linha que separa o sóbrio do ridículo é tênue num regime totalitário. "Existem partes hilárias no livro, como o relato da organização dos gatos alemães, em que houve uma caça aos gatos que não eram puros, que pertenciam aos judeus", revela César Benjamin, diretor da Editora Contraponto. Como tese do livro, Benjamin aponta a dominação da linguagem para se consolidar um poder. O filólogo, assim, nos mostra "como as palavras aparecem e desaparecem, mudam de sentido e de ênfase, se encadeiam de diversas formas, emitem mensagens diferentes ao longo do tempo". Catedrático que era, Klemperer vê essa maleabilidade com reservas, percebendo que quem controla a expressão também controla o pensamento. Leia abaixo alguns trechos do livro.
Trechos do livro
LTI: a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer:
"A linguagem sempre revela o que uma pessoa tem dentro de si e deseja encobrir, de si ou dos outros, ou que conserva inconscientemente. Este também é, sem dúvida, o significado da frase
Le style c´est l´homme (o estilo é o homem). Uma pessoa pode fazer declarações mentirosas, mas o estilo deixará as mentiras expostas".
"O homem que marchava à frente apertava os dedos da mão esquerda bem espalmada no quadril e inclinava o corpo para o mesmo lado, em busca de equilíbrio, apoiando-se nessa mão, enquanto o braço direito golpeava o ar com o bastão e a perna lançava a ponta da bota para o alto, como se tentasse alcançar o bastão. Pairava oblíquo no vazio, como um monumento sem pedestal, misteriosamente mantido ereto por uma convulsão que o esticava dos pés à cabeça. Não era um mero exercício, mas uma dança arcaica e uma marcha militar. O homem era, ao mesmo tempo, faquir e granadeiro. Na época, essa crispação e desarticulação convulsiva podia ser vista em esculturas expressionistas, mas na vida nua e crua, como ela é, no realismo da cidade, seu impacto me atingiu com a força de uma novidade absoluta. [...] Foi a primeira vez que me defrontei com o fanatismo em formato especificamente nacional-socialista. Essa figura muda provocou meu primeiro embate com a linguagem do Terceiro Reich".
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LTI: a linguagem do Terceiro Reich
Victor Klemperer
Editora Contraponto
428 páginas
R$ 60
Mais informações no site da editora:
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